©2016 por Ana e Isabel Roth

O Instituto dos Arquitetos do Brasil expõe a obra gráfica de Otávio Roth, artista que transforma em imagens textos – em inglês – relativos aos Direitos Humanos.

As palavras dos direitos à vida, ao trabalho e à liberdade são gravadas no linóleo, elevando-se à condição de elementos plásticos. E a imagem da letra gravada na matriz, representante de um fonema, compõe um vocabulário plástico que reforça o significado do texto escrito dos direitos.

O artista funde o texto escrito ao texto plástico, construindo a metáfora dos Direitos Humanos numa série de gravuras em cores de qualidade técnica excepcional.

As figuras, como de uma casa ou de uma criança, compostas ao lado das palavras, assumem o papel de alegoria plástica, deixando de ser uma mera ilustração. Elas complementa o significado dos Direitos.

A proeza do gravador vai mais além; o texto escrito reporta-se invariavelmente ao raciocínio, faz o leitor pensar abstratamente. O texto plástico, apreendido sensorialmente pela visão, pelo tato, estimula a sensibilidade do espectador. Ora, Otavio Roth eleva seu discurso artístico a sua potencialidade máxima já que a imagem dos direitos – impressa na gravura – atinge o raciocínio e a emoção do espectador simultaneamente. O texto do direito ao trabalho, por exemplo, representado em imagem na gravura, passa a ser um direito concreto. Tudo o que é visto pelos olhos e palpável pelas mãos não é abstrato, existe de fato.

Não satisfeito em divulgar os Direitos Humanos, o jovem e vigoroso gravador cria um calendário composto de frases poéticas de Chaplin, Chico Buarque, Victor Jara, Santo Agostinho, Tiago de Melo, Vladimir Herzog e de outros brasileiros memoráveis. Toda essa série de gravuras tem o símbolo da mão do homem impressa sobre outros símbolos como os de correntes, de cordas, de flores, etc. Estas gravuras representam a imagem da tragédia fundida à da esperança: constroem a elegia do tempo presente. O papel no qual estão impressas as gravuras do Calendário é fabricado pelo próprio artista, com fibras de algodão. A imagem do sofrimento só poderia ser gravada em papel triturado, lavado e construído pelo gravador – ele incorpora assim o sentimento do outro no seu próprio.

As gravuras do calendário são reproduzidas em tamanho menor e com elas o artista monta um Calendário Objeto, portátil, que tanto pode ser pendurado na parede como apoiar-se na superfície plana.

O nível critico de Otávio Roth aprofunda-se no calendário portável: cada folha tem os dias marcados por imagens inesquecíveis com elas a década de 80 floresce, parece prever a mensagem do artista.

Radha Abramo, “Quando a palavra cresce em relevo”, p. 25, Ilustrada, Folha de S. Paulo (segunda-feira, 10/12/79).