©2016 por Ana e Isabel Roth

Ser único. A Otávio, desde suas primeiras experiências, nunca bastou ser o melhor naquilo que os outros fazem. Seu desejo mais profundo é o de ser único naquilo que faz, ou melhor, refaz.  Foi assim com a fotografia, talvez sua primeira experiência visual, quando trocou a geometria da Engenharia pela poesia humana das paisagens semidesérticas do Oriente Médio, e não lhe foi suficiente. Passou a recortar a fotografia, acrescentou folhas de acetato coloridas, enfim, refez a fotografia dando-lhe nova roupagem.

Pelo mesmo processo passou agora: não totalmente satisfeito com o sucesso internacional de suas gravuras sobre os direitos humanos, abandonou a tradicional técnica da impressão pela esquecida manufatura do papel. Este processo de interferência constante é o que marca seu trabalho e o que o faz saltar adiante sempre. Não lhe basta fazer fotografia ou gravura, necessita interferir no processo reinventando a tradição e dando-lhe nova direção. Para isto é necessário audácia, coragem e, mais do que tudo, entender o jogo do real e saber onde localizar o seu desejo.

Novo velho campo – Se primeiro fabricava o papel e sobre ele imprimia, passou agora a refazer o papel, desfazendo o limite entre a impressão e a feitura, criando um novo-velho campo em que estas duas ações se dão a um  só tempo. Otávio deixou de gravar e passou a tecer. Os papéis aqui expostos são como teias: as formas, linhas, cores e textura que neles percebemos não foram colocados sobre a superfície, fazem parte intrínseca do papel, como ele se mesclando e juntos nascendo. Como na teia, o que mais nos encanta é poder descobrir o entrelaçamento perpétuo e aparente que podemos surpreender ao vê-la.

A delicadeza dos gestos e a evolução no espaço empreendidas por uma aranha ao tecer estão presentes na teia, que em nenhum momento as esconde. Assim se dá com os papéis de Roth, a trama é aparente e presente. E é esta presença da trama que encanta, que nos remete a uma certa transparência, que mistura os limites que tentamos impor às coisas. Seus papéis não são só ou só gravuras. Ficam no limiar; ficam no limiar, criam espaço próprio. Nascem do prazer e não se acanham em mostrar seu processo, ao contrário, revelam a presença da inteligência cega das mãos, que se impõe no ato mesmo do fazer. E é ai que podemos surpreender mais claramente a personalidade artística de Otávio, que foi sempre marcado pelo verbo fazer.

Márcio Doctors, copilação de artigo “Tradição milenar e tecnologia unidas em produção artística”, p. 4, Segundo Caderno, Jornal O Povo (sexta-feira, 27/06/86)