©2016 por Ana e Isabel Roth

Otávio Roth teve longa e atuante presença no cenário das artes visuais do Brasil. Dono de uma produção grande e ainda pouco estudada, Roth é representante de um trabalho sério e um dos precursores do uso do papel artesanal no Brasil. O artista teve presença constante entre os artistas-papeleiros, promovendo palestras, cursos, fazendo curadorias e organizando exposições, sempre privilegiando o universo do papel.

Roth era homem de agudo senso artístico, social e coletivo. Foi ele quem criou e imprimiu as xilogravuras que ilustram os trinta artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU. É de autoria dele a coleção de xilogravuras em permanente exposição nas três sedes da entidade — Nova York, Viena e Genebra. As obras foram, ao longo do tempo, gravadas em várias línguas: norueguês, inglês, francês, japonês, espanhol, dinamarquês e português. Também trabalhou com Ruth Rocha numa versão para crianças da mesma Declaração.

A atenção especial de Roth pelo papel artesanal vai se firmando e acaba por ser, quase integralmente, sua principal pesquisa, estendendo-se por toda a vida do artista. Ele apresentou o papel não só como suporte, mas também como expressão autônoma de arte.

O artista produz então vários trabalhos vanguardistas, com o uso de técnicas diferenciadas e novas descobertas. Durante uma de suas viagens ao Japão, ele volta ao Brasil com a ideia de criar a menor folha que ainda mantivesse intactos todos os elementos do papel – daí nascendo as conhecidas “peninhas”, que geraram instalações montadas em diversos locais, no Brasil e no exterior.

É importante reconhecer a flexibilidade com que Roth criava e recriava temas e ideias, não tendo nenhuma restrição em voltar, reinterpretar e realizar mais uma vez assuntos já antes anteriormente desenvolvidos em técnicas diversas.

As instalações participativas tiveram grande repercussão e firmaram o nome de Roth como verdadeiro educador e divulgador do papel artesanal, pois ele não apenas formava o público nas técnicas tradicionais, mas incentivava a novas descobertas e novos usos do material produzido.

Profundo conhecedor da história e das técnicas de fabricação do papel, Roth ministra palestras e cursos de formação, principalmente em São Paulo, Brasília e Porto Alegre, bem como no Rio de Janeiro.

Em 1988, após a constituinte e a promulgação da nova constituição do Brasil, Roth é convidado para fazer cinco exemplares originais do documento, criando um trabalho altamente esmerado e utilizando papel artesanal, pau-brasil e pergaminho. Os livros foram entregues ao Presidente da Assembléia Constituinte, Presidência da República, Presidência do Supremo Tribunal Federal e ao patrocinador. O último exemplar ficou em posse do próprio artista.

Quando Pietro Maria Bardi, diretor do MASP (Museu de Arte de São Paulo), comemorou seus noventa anos de idade em 1990, Roth idealizou e realizou, no próprio museu, uma nova instalação onde, num tronco de árvore, os visitantes encaixavam mensagens de felicitações ao Professor Bardi em papéis de cores variadas. A árvore (um eucalipto), os papéis com as mensagens, o uso do papel e a participação do público marcam indelevelmente o trabalho do artista

nessa época.

Em 1982 Roth edita uma gravura para o lançamento de um selocomemorativo da ONU. Quando é convidado, em 1990, para fazer uma segunda gravura para a mesma organização, ele realiza uma atividade com crianças da escola da ONU e filhos de diplomatas de várias nacionalidades. A partir dessa experiência surge a ideia de uma nova instalação participativa sob o título de “A Árvore-Instalação Itinerante”. A ideia era a de uma árvore em acetato, na qual crianças do mundo todo fariam intervenções livres sobre folhas autoadesivas, coladas pelo artista em troncos desenhados em nanquim sobre o acetato.

O painel deveria ser gigantesco, pois teria a dimensão da fachada do prédio-sede da ONU, em Nova York. O projeto seria concluído na virada do milênio, no ano 2000, e a ênfase seria comprometer as crianças com a paz mundial.

Realizaram-se algumas instalações e exposições desse projeto, que tiveram grande repercussão. O projeto ficou, porém, inacabado em virtude da morte prematura do artista. Sempre se desejou que a ideia tivesse prosseguimento e fosse concluída. Principalmente neste momento em que a hoje onipresente questão da preservação da natureza, o alerta sobre a importância fundamental da conservação dos recursos naturais, a insistência pelo uso criterioso dos bens e a sustentabilidade da riqueza constituem um dos cernes das discussões mundiais e do sentimento e vivência da paz que infelizmente não se cumpriu.

Por sua atuação, pelo incentivo aos artistas e às novas gerações, as ideias e a obra de Otávio Roth deverão ser revistas e revalorizadas, contribuindo para o alerta necessário contra a destruição da natureza e a necessidade de uma reviravolta nos rumos até aqui erradamente escolhidos pelo ser humano.

 

Antonio Carlos Suster Abdalla, 2016