©2016 por Ana e Isabel Roth

Instalações com peninhas

Uma peninha é uma folha de papel artesanal de algodão colorida com pigmentos naturais e moldada sobre palitos de dente. Essa peça foi desenvolvida com o conceito de menor folha de papel do mundo em uma viagem de Roth ao Japão, no início dos anos 1980, por ocasião de um congresso internacional de papeleiros em Tóquio. O artista desafiou-se a produzir a menor folha de papel artesanal, utilizando-se, para isso, dos instrumentos disponíveis em seu quarto de hotel. Usou um retalho de algodão da manga da camisa como fonte de celulose; mastigou a peça até criar uma polpa, substituindo assim o processo de maceração das fibras em um moinho; utilizou como molde um palito de dente; substituiu a prensa pela pressão entre seus dedos; e, em vez de pendurar as folhas em um varal, deixou-as espetadas em um pequenino suporte para secagem.

A partir dessa unidade, com clara inspiração no minimalismo japonês, Roth compôs diversas peças tridimensionais usando como suporte os materiais que compõem um molde de papel artesanal: cordas, bambus e madeira. Essas obras de cunho autoral foram expostas em galerias de São Paulo (Brasil) e Nova York (EUA) ao longo da década.

No fim dos anos 1980 e a partir dessa mesma pequena peça de papel artesanal, Roth criou imensas instalações de arte em formatos variados, estruturadas sobre placas de madeira ou cerâmica ou aplicadas diretamente sobre o piso e as paredes. Entre diversas instalações compostas sobre essa técnica, destacam-se algumas, como População (Leopold Hoesch Museus, Düren, Alemanha, 1988), instalação composta de 6.200 peninhas dispostas em um octógono de acrílico suspenso, montada in loco pelo artista, com a participação do público, durante a abertura da exposição; O Grande Rabo (Nordjyllands Kustmuseum, Aalborg, Dinamarca, 1988), instalação composta de 100 mil peninhas, montada com a participação de crianças; e a série O Jardim, composta de instalações montadas no Museu de Arte Moderna (São Paulo, Brasil, 1988), no Kyoto Museum (Quioto, Japão, 1989) e no Azabu Museum (Tóquio, Japão, 1989).​

 

Peninhas: unidades de interpretação

As instalações com peninhas sintetizam o encontro entre dois grandes eixos da obra de Roth: o estudo do papel artesanal e a proposição reflexiva, de maneira singela e delicada, sobre o papel do indivíduo na coletividade.

A peninha é a síntese de quase duas décadas de pesquisa de Roth sobre o papel artesanal. Do início dos anos 1970 até sua morte, em 1993, o artista realizou inúmeras viagens de pesquisa a países asiáticos e europeus, que visitava a fim de listar fibras, coletar amostras, conhecer e registrar técnicas de feitura diversas. Desse extenso acervo documental, que hoje compõe a Biblioteca Especializada do Acervo Otávio Roth, ele obtinha as referências para desenvolver as próprias experimentações com fibras e texturas e, pouco a pouco, foi deixando de trabalhar o papel como suporte para suas obras para elevá-lo ao status de obra em si.

A peninha materializa a capacidade de síntese do pesquisador e artesão, que consome a história e a tradição milenar de papeleiros orientais para regurgitar – literalmente – uma pequena e simples amostra-síntese desse conhecimento acumulado. Esse processo ilustra o constante compromisso do artista em simplificar sua obra, facilitando a transmissão de seus valores e ideias para um público amplo e heterogêneo. Reside, aí, um traço presente também em suas escolhas como artista gráfico e professor: sua permanente preocupação em democratizar o acesso às informações aprendidas, como se pode ver através do extensivo trabalho de reescrita e ilustração dos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos em várias línguas e técnicas.

As grandes composições de peninhas sugerem igualmente uma bem-humorada provocação do artista sobre a relação entre o tempo de se fazer arte, à medida que posicionam a unidade artesanal em meio a uma série de escala praticamente industrial.

Márcio Doctors aprofunda tal dicotomia entre o artesanal e o industrial – a produção repetida e infindável – estabelecendo um paralelo entre o fazer asiático e o fazer europeu: “Há nessa série de trabalhos atuais outro encontro interessante a se destacar: o oriental e o ocidental. Essa ideia toma ainda mais força quando descobrimos que a origem desses trabalhos aconteceu na solidão de um quarto de hotel em Tóquio. (...) A partir de condições mínimas – à la Robinson Crusoé –, Otávio Roth reconstruiu da maneira mais simples possível todo um processo bastante mais sofisticado. Há, além desse episódio oriental, um sentido que nós, ocidentais, deixamos enterrado na Idade Média e que hoje determina a especificidade japonesa: a capacidade de gerar o novo a partir da repetição. Se, por um lado, o artista incorporou a fantasia ocidental que identifica em um único sujeito heroico a capacidade de reconstruir o mundo a partir de condições mínimas, contando mais do que tudo com a deliberação de sua vontade, por outro, à moda da fantasia japonesa, repetiu-se, copiou-se infinitamente, para executar um rearranjo do novo” (Doctors, 1989).

O resultado da obra propõe ainda uma experiência de dois níveis para o espectador, à medida que ele é convidado a vivenciar a composição no espaço expositivo e, simultaneamente, levado a estabelecer uma relação intimista, aproximando-se da obra para perceber seus detalhes e reconhecer suas unidades básicas. Sua percepção das dimensões reais da instalação varia conforme seu deslocamento pela galeria, mimetizando um jogo de perspectivas como aquele do sociólogo, que analisa seu objeto de estudo a distância mas que, sob o olhar atento, toma consciência do espaço que individualmente ocupa no todo.

Desse jogo de afastamento e aproximação, de percepção da totalidade e reconhecimento dos elementos constituintes, deriva uma leitura mais política da obra. De forma metafórica, essa grande composição de milhares de peças singulares remete à contribuição de cada indivíduo para a construção da coletividade. Esse ideal de reconhecimento e valorização do grupo permeia outras tantas obras de Roth, de maneira mais explícita em suas diversas experiências de construção de obras de arte participativa, como Corações Abertos (1986), Mural Cívico (1988) e A Árvore (1990).

 

A produção artística de Roth está ligada à defesa inequívoca dos direitos humanos, ao respeito e à valorização da coletividade e ao compromisso total com o acesso democrático à informação. O reconhecimento desses três eixos norteadores de seu percurso profissional é o que nos permite conectar obras à primeira vista tão díspares quanto seu trabalho gráfico e figurativo que versa sobre os artigos da Declaração, suas grandes instalações de arte colaborativas e suas delicadas e intimistas peças de papel artesanal.

Isabel Roth

Curadora Acervo Otávio Roth